Em “Spaces”, Resa Saffa Park Canta da Maneira que Sente | Música Pavê

O rosto acima é familiar e não à toa: Rosa Saffa Park é o codinome musical da artista Theresa Frostad Eggesbø, conhecida também como atriz – principalmente na série Ragnarok, da Netflix, grande sucesso em terras brasileiras. Na última sexta, 18, ela lançou seu mais recente disco, Spaces, acompanhado do clipe de Tendencies.

Semanas antes, ela se sentou com o Música Pavê para contar sobre as similaridades e as diferenças em suas duas carreiras, assim como nos revelar um pouco sobre seu processo criativo.

Música Pavê: Resa, você nasceu em Dubai, cresceu na Noruega e já morou em vários locais diferentes. O quanto essa multiculturalidade te formou também como artista?

Resa Saffa Park: Acho que eu sempre fui uma forasteira, a “de fora”, a “novata”. Isso muda você, porque você não se sente pertencente, todo mundo já está inserido na dinâmica quando você chega. Você entende que você não estará lá a vida inteira, então só pode ser você mesma e vê o que acontece – “será que me adapto à cultura deles?”. Mas é um privilégio, porque me permitiu ser sempre eu mesma, me deu um empurrão para eu aprender a ser eu mesma. E posso levar para mim o que gosto de cada lugar que passe.

MP: Isso é um solo fértil para a criatividade, não é?

Resa: Sim, me tornou uma pessoa autêntica.

MP: Por falar em criatividade, como você compara atuar e cantar? O que há de igual e de diferente nas duas atividades?

Resa: Ambas vêm da mesma fonte: Comunicação de emoções. O que me fez querer atuar foi observar as pessoas na vida cotidiana, como elas se comunicam pelo corpo, as expressões faciais e o tom de voz, quanta emoção está em tudo o que fazemos, daí pude espelhar esses comportamentos para contar histórias. Com a música, cada nota que você toca ou canta tem uma emoção própria. Então, é como se você fizesse pinturas com cada nota, é uma linguagem sobre o que se sente. Quando estou no palco, estou atuando na maneira com que uso meu corpo para expressar e estou cantando as emoções, utilizando palavras. É um trabalho muito emocional.

MP: É interessante como, nessa dinâmica que você descreveu, você compõe as músicas para se expressar e, dessa forma, a personagem das histórias que você interpreta é você mesma.

Resa: Sim. E é muito legal, porque você precisa pensar em quais são os seus valores, o que você quer comunicar… se eu estou me colocando como uma personagem, o que é meu que quero destacar? E tento também pensar em quais são as coisas que eu não quero mostrar, porque isso é que é interessante. Não quero só revelar o que tenho de melhor, virar uma pessoa com quem ninguém se identifique. É uma questão de ser o mais natural que eu consigo ser. Mas às vezes fico pensando nessas coisas e, caramba, como isso é egocêntrico (risos). Eu não acho que eu sou uma pessoa egocêntrica, mas meu trabalho é.

MP: É interessante como você tem dois nomes diferentes para os seus trabalhos – um para atuar, outro para cantar. Você vê como duas identidades diferentes?

Resa: Não, os dois são a mesma pessoa. Às vezes, quando estou criando uma personagem, ela pode ser totalmente diferente de mim, mas algo veio aqui de dentro para que ela nascesse. Contanto que as pessoas entendam que há uma diferença entre os papeis que interpreto e a artista que sou… a maneira como eu me comunico nas redes sociais também, sou eu quem está ali, não é uma atuação.

MP: Você citou as redes sociais. É uma constante nas entrevistas aqui no site e também no podcast os músicos comentarem como lhes é artificial ter que criar conteúdo, quando gostariam de estar apenas dedicados às suas atividades musicais. Você compartilha desse sentimento?

Resa: Eu vi um post no Instagram sobre isso. Não lembro quem publicou, mas ele viralizou e todo artista que eu conheço se identificou, porque é muito verdade. Entretanto, no meu caso, tudo o que eu publico nas redes sociais foi natural para mim. Eu não penso que preciso criar conteúdo e aí me forço a criar. O que eu publico é algo que eu senti naquela hora e lugar, e foi natural que eu compartilhasse. O que eu odeio é quando as pessoas com quem trabalho dizem “você tem que criar conteúdo” em um determinado dia. Isso não é natural. Fico confusa, não sei o que fazer e não sei o que eles querem de mim. Outro dia, me pediram para gravar um vídeo falando do meu single, com uma luz bonita, um enquadramento específico… e eu gravei, porque para mim era natural falar sobre o single, mas eu entendi que a questão ali era a iluminação e o enquadramento. E aquele vídeo se tornou o meu mais assistido de todos. Perguntei à gravadora o que aconteceu e eles explicaram que o algoritmo procura a “perfeição” – não que eu seja perfeita (risos) -, se você aparece de um determinado jeito no vídeo, ele impulsiona a publicação. Ter que fazer isso para poder falar sobre a minha música é muito desencorajador, porque estou usando uma fonte muito diferente para falar de arte. E essa é a única maneira de sobreviver nesse mundo? Então, não quero participar.

MP: Vamos falar mais sobre música, especificamente. Como você encontrou sua estética, a cara que suas músicas deveriam ter?

Resa: Sempre compus músicas que me agradavam. Ouço muita música melancólica, é isso o que me atrai, acho que esse é o meu padrão emocional. Ao trabalhar com outros produtores, tive algumas dificuldades, porque eu gosto de trabalhar sozinha, ou com alguém que eu confio muito, e muitas vezes me coloquei em situações com produtores que… criamos algo juntos, ficou bom, mas eu não me sentia conectada, porque não era completamente meu. Então, precisei trabalhar na minha confiança daquilo que eu acredito que é bom. É trazer mais do que eu quero cantar e como eu quero que a música seja. Porque se eu estarei no centro, se será minha arte, então vai ter que ser do meu jeito. Tive que começar a pensar na sonoridade além das letras, em quais instrumentos queria, na textura do som – coisas que eu normalmente não penso muito enquanto cantora e compositora, mas que agora estão no centro do meu processo criativo. E continuo compondo bastante sozinha.

MP: Você lançou alguns singles antes do álbum completo, como Candles e Dandelions. O quanto essas músicas representam de Spaces?

Resa: Há muito dessas músicas no disco. Candles não é um single típico, mas era importante que fosse lançada porque, para mim, é a música que mais mostra quem eu sou. Algumas faixas são mais animadinhas e, ainda assim, mostram quem sou, mas era importante para mim que fossem lançadas primeiro, porque não representariam o disco como um todo. Porque acho que ele é melancólico, dramático, trágico… que é como eu me sinto na maior parte do tempo (risos).

MP: Me chamou atenção como você, que é atriz, optou por não atuar nesses dois videoclipes, preferiu uma experiência mais estética, se posso dizer assim, ao invés de uma narrativa específica.

Resa: Interessante. Acho que… quando componho, nunca penso em mim como o “rosto” daquela canção. Quando escrevo, são pensamentos, é abstrato. São tantas ideias que vêm à mente que prefiro criar algo que esteja aberto para interpretação, ao invés do vídeo me mostrar cantando. Depende do que eu quero para cada canção, mas, para estas, que são mais sensíveis, queria que os vídeos fossem também mais abstratos.

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