Zudizilla: “Não consigo pensar em outra coisa, a não ser salvar meus amigos” | Música Pavê

Zulo: De César a Cristo (Vol.2) é mais um álbum em que Zudizilla entrega aquilo que já conhecemos tão bem em sua obra: Rima certeira, som múltiplo e um olhar franco e sem rodeios que atravessa sua experiência no Brasil: O racismo. Nascido em Pelotas, o rapper espelha sua mensagem e sua história nas experiências de seus conterrâneos gaúchos e dar visibilidade às pessoas pretas do Rio Grande do Sul no filme Vozes do Silêncio, lançado hoje (30).

Falando ao Música Pavê, ele conta que sempre soube que o segundo volume da trilogia (iniciada em Zulu, Vol.1: De Onde Eu Possa Alcançar o Céu Sem Deixar o Chão, de 2019) seria um filme. “Quando terminei primeiro, fiquei receoso pensando como conseguir recursos para trazer esse trabalho que estava na minha cabeça, mas ainda não estava roteirizado. Eu ia dar um jeito de fazer, só não sabia como”. Foi quando ele foi contemplado pelo edital Natura Musical para o disco e, como contrapartida, se comprometeu a entregar também um produto audiovisual.

Sua ideia era realizar “um documentário que relatasse essa questão da vivência preta no Rio Grande do Sul”, como ele explica, “tenho uma amiga de lá, a Bartira (DasMina), que foi contemplada no edital no mesmo ano que eu com uma proposta parecida com a minha. Então, ela fez algo que eu faria durante a pandemia, mostrando a dinâmica desse período que a gente está recluso, e pegou personalidades do RS, fez chamadas de vídeo e editou. E agora, o que eu vou fazer? (risos)”.

“Me deu uma ideia de, ao invés de fazer esse trampo documental, fazer um trampo ficcional-documental. Decidi pegar o texto de uma amiga minha escritora, Winnie Bueno, escrever um roteiro em cima disso e entregar a uma equipe lá do RS para transformar em um curta, e ele teria a dinâmica sonora norteada pelas músicas do disco”. Vol.2, segundo ele, já estava “praticamente pronto, pelo menos na questão dos instrumentais, e algumas músicas eu escrevi no processo de produção do álbum. Eu já tinha mais ou menos a tônica de quais os instrumentais que iam entrar no filme, em uma relação de trilha sonora mesmo. Então o filme não serve ao disco, mas o disco serve ao filme”.

Situar a narrativa no Rio Grande do Sul serve o propósito de mostrar ao Brasil como são as vivências que Zudizilla conhece tão bem no dia a dia das pessoas pretas no estado. “Em São Paulo, é possível relativizar e conversar de outras esferas e outros pontos de vista. No RS, não dá”, conta ele, “o embate é de frente, é reto, é o tempo inteiro, e tu aprende a conviver com isso, se molda a isso e cria uma persona dentro de casa e uma persona fora”.

“Eu fui salvo pelo Mano Brown, que escreveu como era a vida na quebrada, eu fui salvo pelo MV Bill, que explicou como era a vida no morro. E eu quero explicar como isso está na sociedade agora, para aquém do lugar onde a gente está submetido, porque essas relações de racismo ultrapassam a favela, e elas nem sempre vem nas palavras ‘macaco’, ‘crioulo’ ou ‘negrinho’. Às vezes é um olhar, uma proibição de um emprego que você não consegue ou uma faculdade que não pode terminar. Por ser um cara que cresceu preto e fodido na periferia, eu não consigo pensar em outra coisa, a não ser em salvar meus amigos”.

Observar a experiência gaúcha dos pretos é também uma forma de entender melhor como essas questões se dão também em todo o Brasil: “Grande parte dos nossos problemas sociais no mundo parte dessa narrativa de racismo”, explica o rapper, “se a gente conseguir compreender as dinâmicas, entender os gatilhos e pelo menos reprimir algumas atitudes e alguns obstáculos que ele impõe, 50% dos nossos problemas enquanto sociedade avançam”.

“Tenho plena consciência de que isso é uma merda, mas racializar as condições sempre vai ser vigente e contemporâneo enquanto a gente não repousar o olhar sobre isso com mais carinho. A gente sempre vai ter esse problema. O que estamos tendo no Brasil em relação ao governo é simplesmente uma questão identitária. E quando eu falo de racializar as questões, não é simplesmente olhar pelo olhar do preto – eu faço isso porque eu sou preto, tá ligado? Mas, se o branco conseguir repousar seu olhar e conseguir enxergar as questões, que o mundo é racializado automaticamente e que só o branco pode ser sem precisar pensar na questão racial… porque é isso, o racismo não é problema meu, é uma pica que me largaram para segurar, mas, na verdade, eu não sou o racista (risos), não era eu que deveria fomentar essas discussões. Isso é um problema do branco. Mas ele pode só ser, porque o racismo só vai afetar ele na devolução, quando a água bate na bunda, aí a galera pensa ‘mas por que comigo, por que o meu celular, por que o meu filho?’”. 

Se essa mensagem tem enorme potência nos versos do rapper, este lançamento deve incorporar ainda mais força à sua mensagem. “A potência do produto audiovisual que eu estou trazendo é maior que a potência do Zudizilla enquanto protagonista da própria história, porque o filme traz outras pessoas e outras histórias”, conta ele, “eu, enquanto artista, sou muito nuclear, parto muito do meu âmago, do meu eu, para que consiga atingir outras pessoas que tenham talvez se esquecido como é ser elas mesmas, e talvez elas consigam se reencontrar. Me preocupo mais em perpetuar arte e provocar as pessoas com o que estou entregando”.

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